"Dificuldades todos ns enfrentaremos, durante toda a vida, as pedras no caminho so vrias, s depende de voc querer passar por cima delas ou deixar elas te carregarem."

Davi Ferreira Leite Monteiro
Cincia e Tecnologia - UFABC

"Bem, minha histria com o CASDVest comeou um ano antes de realmente entrar no CASDVest, sonhava com a idia de ingressar em uma federal, ento ouvi falar sobre um cursinho "grtis", e resolvi tentar a sorte.

No acreditei quando passei para a entrevista de renda, fiquei realmente muito feliz. Juntei todos os documentos com minha me - que me deu o maior apoio - e fomos para a entrevista na sede do CASDVest.

Ento comea a minha historia de batalhas. Na entrevista descobri que no poderia entrar no CASDVest, pois ainda estava no 2 ano do Ensino Mdio. Aquilo foi o fim para mim, pensei que o mundo tinha acabado e quase comecei a chorar. Entretanto, o prof. Natal, que fez minha entrevista na poca, me disse para no desistir, que o CASDVest era todo feito de pessoas como eu - que batalharam muito - e que eu j estava me esforando bastante. Um ano adiantado, alis, mantendo o empenho com certeza no prximo ano seria aprovado novamente.

Um ano depois... L estava eu, com toda aquela pilha de documentos e minha me para fazer a entrevista novamente, agora com a experincia da primeira, e bem menos nervoso. O entrevistador lembrou-se de mim. Por ironia, era o mesmo, o prof. Natal, e me disse as mesmas coisas: para continuar lutando com esforo que eu conseguiria alcanar o que desejava.

Agora eu precisava de um emprego para poder pagar as passagens (morava em Caapava). Na poca com muita sorte consegui um estgio em So Jos dos Campos. Dava para pagar as passagens e ainda sobrava um trocadinho. Era muito corrido, porm. Saa de casa s 7, ia para a escola, saa de l direto para So Jos dos Campos, almoava no servio, saa do estgio e ia direto para o CASDVest. Chegava em casa quase meia noite.

Conciliar o 3 ano do Ensino Mdio com o trabalho e o cursinho foi bem complicado, no dava para fazer os trs direito, ento acabava sempre fazendo tudo mais ou menos.

Uns 4 meses depois do incio das aulas, a situao financeira em casa estava melhor, e minha me concordou em pagar o transporte para eu poder somente estudar. Foi ai que eu pensei que as coisas iriam dar certo, grande engano.

Logo apos deixar o estgio, meu pai - que tinha uma pequena empresa - entrou em decadncia e teve que decretar a falncia e vender o prdio onde trabalhava, as ferramentas etc..A situao financeira de casa voltou a piorar, mas logo se estabilizou.

Fora o financeiro, o emocional em casa estava complicado, meus pais brigavam constantemente, h muito tempo. Era muito triste para mim conviver com essa situao, extremamente desagradvel, mas no me envolvia.

Eles ento resolveram se separar. Aquilo sim foi um choque, no esperava por isso, no acreditava que chegaramos a esse ponto. Meu pai saiu de casa. No havia mais brigas pelo menos, a paz reinava no meu lar, e o dinheiro nem era mais um problema to grande.

Nessa altura da histria no CASDVest eu era um aluno regular, no conseguia estudar direito. Comeava a pensar nos problemas pessoais e sempre me distraa, sem contar as tarefas da escola, que pesavam bastante.

Entramos nas frias de julho, e eu ento passava mal de tanto estudar: estudava todo dia, vrias horas. Foi o nico perodo em que eu realmente estudei de verdade. No fim das frias, minha me comeou a sentir fortes dores de cabea. O problema comeou a preocupar de verdade e no sabia mais o que fazer. Como a famlia dela era de So Paulo, minhas tias vieram at Caapava e a levaram para l, onde tinham mais hospitais etc.

Diagnosticaram que ela estava com depresso, medicaram vrios remdios que a doparam, e ela ento teve de ficar em So Paulo. As aulas tinham voltado e eu intercalava alguns dias aqui no Vale, e alguns dias em SP. Comecei a faltar, tanto na escola quanto no CASD.

Passaram-se 2 meses assim, a minha me muito doente, longe de mim, eu estudava mais para me distrair do que por vontade de estudar mesmo. Foi ento que descobrimos seu verdadeiro problema, ela tinha um tumor cerebral, que precisava ser retirado com urgncia.

A partir da eu deixei de ir ao CASDVest, por indicao da famlia, e pelo Everson (Coala), meu conselheiro, que disse para dar prioridade famlia, afinal tinha a vida inteira para passar no vestibular ainda e minha me precisava mais de minha ateno do que os estudos.

Eu fiquei uns 15 dias em So Paulo, a sade da minha me sempre no limite. Foram dias complicados. Trs dias aps a cirurgia do tumor seria o ENEM. Eu no estudava h um tempo, e nem tinha condies psicolgicas de fazer a prova tambm. Pedi a Deus um milagre... ele me ouviu e cancelaram o ENEM!

O tumor cerebral, entretanto, era um cncer que, diagnosticado tardiamente, resultou no falecimento da minha me alguns dias depois da cirurgia.

Lembro-me de que o ltimo conselho que ela me deu foi para nunca deixar de fazer uma prova de vestibular pela condio dela. Assim eu fiz, ela havia falecido na vspera do Vestibular da UNESP, e no domingo (dia da prova) l estava eu cantando o nosso grito de guerra!

Superar sua morte foi extremamente difcil, mas a maior vontade dela era me ver entrar em uma boa universidade e isso meu deu fora para continuar estudando (mas nunca parei definitivamente de estudar, sempre folheava algum livro para passar o tempo).

Voltei a ir ao CASDVest, na poca nem havia mais meu nome na lista de chamada, de tanto que faltei. Estavam nas revises, freqentei algumas aulas e comeou a maratona de provas. Estudei como nunca para 2 fase da UNESP e para o ENEM. Tirava notas regulares. Fiz o ENEM (agora mais preparado) e comearam a sair os resultados bomba atrs de bomba. Estava preparado para fazer o cursinho por mais um ano.

Minha famlia me olhava com pena, sabiam que minhas chances eram mnimas e que meu esforo talvez fosse em vo, mas nunca perdi a f. Dos 8 vestibulares que fiz, fui aprovado somente em 1, Bacharel em Cincia e Tecnologia na UFABC, alis, o curso mais concorrido do ENEM. Fiquei mais do que feliz, parecia inacreditvel ter passado por tudo isso com sucesso. Chorei por dias. No existem palavras que descrevem o que eu senti.

A lio que eu tirei disso tudo ter f, no desistir e acreditar que no fim tudo da certo!

Eu poderia ter desistido 2 anos atrs quando me disseram que no iria estudar por ser muito jovem, ou quando no tinha tempo para nada (estudava, trabalhava e estudava de noite), ou ainda quando minha me se separou do meu pai, quando o financeiro apertava, quando perdi minha me e ningum acreditava que eu conseguiria.

Dificuldades todos ns enfrentaremos, durante toda a vida, as pedras no caminho so vrias, s depende de voc querer passar por cima delas ou deixar elas te carregarem.

E aos vestibulandos eu deixo o conselho da minha me Nunca, em hiptese alguma deixem de fazer uma prova, por qualquer que seja o motivo"

Davi Ferreira Leite Monteiro
Aluno(a) do CASD aprovado(a) em 2009